Recomeço: Conheça o Segundo Livro da Série Cidade Dimensional

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Recomeço é o segundo livro da série Cidade Dimensional, vem na sequência de A Fortaleza Subterrânea. Enquanto a estação esta fechada novas revelações surgem sobre seu passado e sobre a máquina do tempo, uma delas está no primeiro capítulo que pode ser lido abaixo.

Capítulo 1: A Expedição

Novo Hamburgo abril de 2018.

O projeto inicial das três primeiras estações contava com quatro hotéis um hospital e o prédio da Dimensão Turismo. Apenas a estação da América do Sul contava com duas pousadas a mais, todas construídas ao mesmo tempo. Foram criadas desta forma a pedido de Valdir que preferia evitar grandes investimentos antes de ter uma ideia do retorno que teria.

Como Valdir pretendia explorar ao máximo o mundo ao qual estavam tendo acesso acreditava que três era o mínimo necessário para iniciar. No entanto, o problema das grandes distâncias ainda os acompanharia por muito tempo.

– Eu estive pensando – disse Valdir certa vez quando Alex esteve em sua casa, falavam sobre as estações, já estavam construindo a primeira na Mongólia, as outras duas iniciariam em breve – agora que nos aproximamos dos dinossauros, devemos interagir com eles em algum momento e é bem provável que alguém irá tirá-los de seu habitat por alguma razão ou outra, mas por que esta confusão nunca foi encontrada em fosseis.

– Não acredito que este tipo de coisa venha a acontecer apesar da possibilidade de nossa presença lá não trazer nenhum risco, devemos tomar cuidado caso esses animais sejam removidos de sua época. Agora mesmo que algum destes animais venha a viver numa época diferente é muito improvável que justo este animal tenha a sorte de resistir à ação do tempo – explico Alex.

– É verdade – admitiu Valdir com uma profunda decepção – para que seus ossos sejam encontrados é preciso que sejam fossilizados e este é um procedimento muito raro, mas nossa passagem por lá tem que ter deixado algum vestígio – concluiu Valdir indignado.

Fez se um breve silêncio.

– Quero enviar uma expedição cientifica a região de nossa estação – continuou Valdir subitamente, pegando Alex de surpresa – sei onde encontrar o que procuro.

– Quer levar uma expedição a Mongólia? – perguntou Alex.

– Não! – disse Valdir com firmeza – É claro que não. A estação na Mongólia já é conhecida no presente. Se enviar uma expedição para lá poderia levantar suspeita, se associarem uma coisa a outra pode me trazer problemas. Alex eu quero que isso fique entre nós, ou poderá atrapalhar meus objetivos.

– Tem medo do que possa encontrar? Ou não é exatamente fóssil o que você está procurando? – perguntou Alex.

– Vou fingir que não ouvi sua última pergunta – disse Valdir meio aborrecido, sabia que era quase impossível que alguma coisa da estação resistisse por tanto tempo, mas isso não o impedia de alimentar certa esperança, embora ele mesmo não admitisse. – Não tenho medo de nada, só quero evitar que se torne público o que estamos fazendo, o que me preocupa são as questões legais, não sei se nosso envolvimento seria bem visto.

– Neste caso eu acho que você não deveria ir diretamente formando uma expedição – disse Alex – converse com paleontólogos e cientistas experientes na área, informe se sobre o assunto. Então quando tiver a certeza do que pode fazer, escolha um ou dois entre eles e diga exatamente o que você quer. Mas, para onde mesmo você pretende mandar esta expedição?

– Para o lugar onde construiremos nossa próxima estação – respondeu Valdir.

– Mas ainda não há próxima estação, mal começamos esta – disse Alex surpreso.

– Mas haverá, – disse Valdir com veemência – ou então não haveria nenhum sentido em tudo isso. Já decidimos que a próxima estação será construída no Brasil e todos concordam que seja no Rio Grande do Sul, por isso, já está decidido é para lá que vou mandar a expedição.

– Sim, eu concordo que já definimos tudo isso – disse Alex – mas o mais importante ainda não foi decidido e ao que tudo indica nem será tão logo em qual cidade iremos construí-la?

– Este problema você mesmo já me ajudou a resolver – respondeu Valdir – vou seguir seu conselho e me informar melhor sobre este assunto, até que a cidade esteja definida. Mas a expedição deverá sair bem antes da nova estação ser anunciada, de preferência que já esteja concluída até esse dia.

– É um bom motivo para começar agora mesmo – concluiu Alex.

Valdir levou a sério o que Alex falou e pouco mais de um mês depois já havia falado com várias pessoas experientes na área da paleontologia, geologia e arqueologia. Mas a expedição pela qual esperava, dependia da burocracia política, o que mesmo tendo influência com o prefeito, não se realizava de um dia para o outro. No entanto, Valdir sabia que embora nem tudo corresse conforme ele desejava apenas a ajuda de seus aliados na política tornariam esta expedição possível. Pois com a ajuda deles, Valdir conseguiu colocar na expedição alguém de sua inteira confiança, a quem explicou o que procurava, de modo que soubesse o que fazer quando chegasse a hora. Bem na verdade mais do que isso, apenas com a ajuda deles a expedição foi possível.

Lucas era um paleontólogo que se formara há poucos anos. Depois de receber todos os detalhes do que Valdir realmente queria não pode deixar de pensar como Alex, que Valdir procurava mais por vestígios da estação do que por fósseis de dinossauros. Lucas recebeu instruções para lhe informar sobre tudo o que acontecesse na expedição. Além disso, deveria encorajar seus companheiros a prosseguirem em meio às dificuldades, pois Valdir sabia que o que pedia era difícil e alguns poderiam querer desistir antes de encontrarem alguma coisa. Se é que um dia encontrariam o que ele estava procurando.

A expedição começou em janeiro de 2019 percorrendo a região em que Valdir queria que se iniciasse a busca pelos fósseis. Era uma região do interior nos arredores de Tupanciretã. Desde o princípio passaram por diversas dificuldades, alguns lugares eram de difícil acesso e algumas vezes tinham que andar na mata fechada, sem contar que as rochas do período no local eram quase inexistentes. A princípio Lucas os encorajou o quanto pode, pois sabia que o lugar há muito tempo no passado, iria receber uma das estações criadas pela Dimensão Turismo abrindo caminho para que uma diversidade de animais passasse por ali.

Mas o tempo estava passando sem que nada encontrassem e depois de alguns meses até mesmo Lucas começou a desanimar. Nas reclamações mais frequentes diziam que tudo aquilo não passava de uma perda de tempo, porque já estava claro que não iriam encontrar nada num lugar como aquele. Três meses haviam se passado quando Lucas ligou para a empresa, prestes a desistir, precisava apenas da autorização que estava pedindo naquele momento. Era com Alex que estava falando naquele dia e assim que Lucas explicou a e situação, Alex voltou se para Valdir que estava ao seu lado.

– É o Lucas, ele pede o fim da expedição – disse Alex.

– Não! – disse Valdir com firmeza – A menos que tenham encontrado alguma coisa vão continuar procurando.

– É melhor você falar com ele então – disse Alex passando o telefone a Valdir.

Valdir pegou o telefone e ouviu o que Lucas tinha a dizer, depois de todo este tempo sem encontrar nada percebeu que o paleontólogo tinha razão. Lucas contou lhe tudo o que estava acontecendo e Valdir percebeu que estava na hora de desistir do seu sonho de prever o futuro da estação. Lucas tinha bons argumentos, mas Valdir investiu muito alto na expedição e era difícil aceitar que acabaria sem que encontrassem nada.

– Mais uma semana – disse enfim Valdir, ainda tendo uma pequena esperança – só o que eu peço é mais uma semana, depois disso, vocês podem voltar sem me pedir autorização.

Apesar de Ernesto ser o líder apenas Lucas sabia do envolvimento de Valdir, por isso, toda vez que precisava falar com ele, Lucas não falava nada ou como naquela ocasião dizia que iria falar com os superiores. Quando Lucas voltou para junto dos demais, eles aguardavam a autorização para partir, mas logo que ele chegou perceberam que não seria bem assim.

– Devemos ficar mais uma semana – disse Lucas.

– Eu não acredito que você aceitou continuar com isso – gritou Ernesto desapontado com o que ouviu – já estamos a três meses percorrendo este lugar, perdidos no meio da mata, subindo e descendo morros que nunca tiveram o que procuramos. Não há mais nada a fazer aqui – fez um gesto com as mãos se referindo ao ambiente a sua volta – e você sabe disso.

– Só mais uma semana – disse Lucas – é só o que eles pedem, depois pegamos nossas coisas e vamos embora, sem falar com ninguém.

Lucas percebeu que já nascia entre eles certa desconfiança quanto ao que estava acontecendo, que interesse havia numa busca tão demorada numa região que indicava não ter nada. Achou que talvez fosse a hora de revelar toda a verdade, mas isso agora não importava mais para ele. Assim como os outros, havia perdido a esperança de encontrar alguma coisa e resolveu não falar nada sobre o envolvimento da Dimensão Turismo. Mesmo porque seus colegas poderiam acusar este envolvimento de ilegal e isso levantaria discussões que não eram necessárias.

– Não nos enviariam até aqui, á passar por todas estas dificuldades se não houvesse um bom motivo para acreditar no que estamos fazendo – disse Lucas tentando reforçar a confiança de seus colegas.

Nesta época todos os integrantes da expedição não viam a hora de deixar aquele lugar e voltar para suas casas, mas a certeza de que dentro de uma semana isso seria possível pareceu acender neles um novo animo. E assim passou mais um, dois dias e nada. No fim do terceiro dia, eles chegaram a um vasto campo de poucas árvores onde passaram a noite e no quarto dia prosseguiram as buscas neste lugar. Já passava do meio dia quando um pequeno fragmento de rocha lhes chamou a atenção, Lucas pegou a pedra para ver melhor e percebeu que em um dos lados havia algo que parecia um dente.

– Mas não é possível – disse Letícia – este dente parece tão grande quanto o de um tyrannosaurus.

– E também pode ser a única coisa que encontremos por aqui, mesmo que seja de um dinossauro pode ser só o que restou – disse Ernesto ainda pessimista.

– Este não pode ser um dente de tyrannosaurus – disse Ramiro – estes animais nunca viveram nesta parte do mundo.

Mandaram examinar a rocha e o dente, para certificar-se de que se tratava mesmo de um dinossauro. Nem foi preciso aguardar o resultado. No dia seguinte encontraram um fóssil próximo ao lugar em que estava o dente, era mesmo um tyrannosaurus. Logo acreditaram que a fabulosa descoberta era a recompensa por três meses de dificuldades sem qualquer resultado.

Tiveram que contratar mais pessoas para ajudar nas escavações. Houve tanto trabalho que Lucas chegou a esquecer de avisar Valdir sobre a descoberta. Ele já estava pensando que haviam abandonado tudo, tão chateados que não queriam falar mais nada sobre o assunto. Mal pode acreditar quando Lucas ligou naquela tarde explicando tudo o que havia acontecido, Valdir ficou tão contente com a notícia que prometeu visitá-los em breve.

Quando Lucas voltou viu Valéria, uma jovem arqueóloga que se juntara ao grupo a algumas semanas, limpando com um pincel os ossos do tyrannosaurus. A moça havia se formado recentemente e encontrou naquele lugar sua primeira experiência. Gostava muito da profissão que escolheu. Valéria estava tão concentrada no que fazia que a princípio nem percebeu Lucas se aproximando, mas ele pegou uma escova e começou a ajudá-la.

– Você é nova por aqui não é mesmo – disse ele querendo mostrar que estava ali, mas como ela continuava em silêncio, nem se quer ergueu a cabeça para ver quem lhe dirigia a palavra, ele continuou – bem é que eu não a via quando começamos, por isso, achei que…

Por um momento sentiu se envergonhado, talvez fosse melhor não ter dito nada. Mas depois de um breve silêncio, Valéria respondeu:

– Conheci Alex na universidade, ele sabia que eu estava me formando em arqueologia, então quando nos encontramos ele me falou sobre a expedição.

– Eu me chamo Lucas – disse ele sentindo-se mais confiante.

– Meu nome é Valéria – disse ela e levantou os olhos com um sorriso, mas logo continuou o que estava fazendo.

– Alex? Não conheço o que ele faz e qual a ligação dele com esta expedição? – perguntou Lucas curioso.

– Ele é um físico, amigo de Valdir que… – neste momento Valéria se calou percebendo que já falava demais. Alex havia pedido para que tomasse cuidado com o que fosse dizer, nem todos sabiam do verdadeiro objetivo da expedição e Valéria sabia que nem todos aceitariam o envolvimento de uma empresa privada.

– … que foi quem insistiu para que esta expedição se realizasse – completou Lucas.

– Você está sabendo? – perguntou Valéria ao que Lucas respondeu com um aceno afirmativo de cabeça.

Eles trabalharam em silêncio por um tempo.

– Este é o esqueleto de um tyrannosaurus – falou Lucas finalmente quebrando o silêncio – foi o primeiro desta espécie encontrado nesta parte do mundo. Como você explica isso?

– O paleontólogo aqui é você – respondeu Valéria.

Houve um deslizamento há alguns metros de onde Lucas e Valéria estavam. Pessoas que trabalhavam no local se assustaram afastando-se um pouco, mas ninguém se feriu. Quando voltaram perceberam que o que havia de mais extraordinário para ser descoberto ali, não estava nas rochas, nem na espécie encontrada, pois uma larga extensão de parede saia de dentro do morro revelando parte de um prédio. O fato despertou a curiosidade das pessoas que estavam por perto e logo os arredores do barranco estava cheio de gente, tanto que foram obrigados a pedir que todos voltassem ao seu trabalho.

De longe Lucas viu que dois homens estavam subindo o barranco, mas acompanhou Valéria de volta ao trabalho anterior e continuaram limpando os ossos. Enquanto fazia seu trabalho Lucas manteve se atento aos dois homens que inspecionavam o local do desmoronamento, nem ele, nem Valéria, conseguiam trabalhar direito depois do que aconteceu. Ambos estavam ansiosos, mesmo vendo não acreditavam que aquilo era possível, se fosse mesmo uma estação da Dimensão Turismos, eles teriam que explicar o verdadeiro motivo de estarem ali.

Lucas não entendia porque demorava tanto, cada segundo era uma eternidade e quando finalmente desceram foi falar com eles. Ao ver Lucas se afastando, Valéria largou o que estava fazendo e o acompanhou, também queria entender o que estava acontecendo. Quando chegavam perto puderam ouvir um deles dizer.

– Quero caminhões e tratores neste lugar, vamos tirar terra até saber aonde isso vai! E você – gritou Ernesto erguendo o indicador em direção a arqueóloga Valéria – está na hora de fazer alguma coisa em sua área.

– O que foi que vocês encontraram lá? – perguntou Lucas depois que o outro rapaz começou a se afastar.

– é isso que eu pretendo descobrir – disse Ernesto – parece ser parte da parede um prédio, mas o curioso é que nenhum de nós conseguiu tocá-lo.

– Então você acha que o prédio não existe? – perguntou Lucas.

– Se apenas um de nós o estivesse vendo eu iria dizer que estava ficando louco e dava o caso por encerrado – ironizou Ernesto – mas como todos nós vimos tenho que encontrar alguém que tenha uma explicação melhor.

– Podemos ver, mas não podemos tocar – disse Valéria – como se o prédio estivesse em outra dimensão e por alguma razão que desconhecemos, ele ficou dividido entre os dois mundos.

Quatro dias de intenso trabalho se passaram. A grande quantidade de terra retirada até então, revelava um buraco e em seu interior o primeiro andar de um prédio. Uma rampa, escavada na terra, descia ladeando o morro para que caminhões, tratores e pessoas pudessem subir e descer. A escavação não era tão delicada quanto costumava ser, pois não precisavam se preocupar em danificar a construção e ter cuidado ao retirar a terra. Trabalhavam como se nada daquilo existisse e mesmo assim o prédio se revelava mais e mais diante de seus olhos.

Conclusão

O livro Recomeço foi publicado em forma de e-book pela Amazon. O capítulo acima é o começo do segundo livro da série Cidade Dimensional, acesse o link e saiba mais.